Formação
Andrea Ernest Dias é filha e irmã de músicos.
“Venho de uma família de, em sua maioria, músicos profissionais. Minha mãe, Odette Ernest Dias, flautista francesa, Primeiro Prêmio do Conservatório de Paris, veio para o Brasil em 1952, a convite do Maestro Eleazar de Carvalho, para integrar a Orquestra Sinfônica Brasileira. Meu pai era bancário. Somos seis irmãos, entre os quais cinco músicos e uma tradutora e revisora de textos.”
Os irmãos músicos de Andrea Ernest Dias são: Beth, flautista da Orquestra Sinfônica de Brasília e professora da Escola de Música de Brasília; Jaime, violonista, arranjador, compositor e professor da Escola de Música de Brasília; Cláudia, professora e diretora do Grupo Flautistas da Pro-Arte; Carlos, multi-instrumentista, compositor, arranjador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais.
Portanto, a casa de Andrea sempre foi habitada, também, pela música e as lembranças musicais mais antigas da flautista vêm do berço.
“A atividade profissional de minha mãe foi, e ainda é, intensa. Na infância freqüentávamos muitos concertos de câmara e sinfônicos, entre eles os Concertos para a Juventude da TV Globo nos anos de 1970. Nos anos 80, em Brasília, as primeiras reuniões do Clube do Choro aconteciam regularmente aos sábados em nosso apartamento, antes do Clube ter sua própria sede, com a presença de, entre tantos chorões, Waldir Azevedo, Bide da Flauta, Pernambuco do Pandeiro e, eventualmente, dos visitantes Paulo Moura, Joel Nascimento, Paulinho da Viola, César Faria e Copinha. Sempre ouvimos e praticamos muita música em grupo, erudita e popular. Me lembro da importante coleção de discos lançada por Marcus Pereira, que ouvíamos ininterruptamente: “Música Popular do Sul, do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste”, “Brasil Seresta”, etc... (n. e.: a flautista se refere aos discos lançados nos anos de 1970 pelo publicitário Marcus Pereira, “Música Popular do Nordeste”, “Música Popular do Norte”, “Música Popular do Sul” e “Música Popular do Centro Oeste e Sudeste”, cada título com quatro volumes e, ainda, ao disco “Brasil, Seresta”, lançado em 1974, com o flautista Carlos Poyares).
Andrea começou a estudar música em 1970, com sete anos de idade, e teve uma longa e intensa formação musical.
“Comecei na turma de musicalização da professora Saloméa Gandelman, nos Seminários de Música Pro-Arte, RJ, e aos oito anos passei para o piano com a professora Elza Schachter. Após a mudança da família para Brasília, em 1974, tive aulas de piano com Elza Kazuko Gushiken, de cravo com Maria de Lourdes Cútolo e, aos 12 anos, me decidi pela flauta, começando a ter aulas eventuais em casa, com minha mãe. Na Escola de Música de Brasília, continuei os estudos de teoria musical e integrei a Banda Sinfônica da EMB, de 1976 a 1980, quando ingressei no Bacharelado em Flauta do Departamento de Música da Universidade de Brasília, onde tive aulas regulares com minha mãe, professora desta universidade à época. Ainda na adolescência, freqüentei também os Festivais de Inverno de Ouro Preto e Diamantina, em Minas Gerais, nos anos de 1970 e 80, onde tive contato com a música contemporânea e experimental em oficinas ministradas por compositores como Lindembergue Cardoso e Eduardo Bértola. Me formei em 1983 e me pós-graduei no Mestrado em Flauta da UFRJ, em 1996, orientada pelos professores doutores Celso Woltzenlogel e Heitor Alimonda. Passei, ainda, um período de estudos em Paris, orientada pelo professor Pierre-Yves Artaud, em 1985, e participei de estágios orientados pelo flautista Aurèle Nicolet, na Itália, em 1997. Tive, também, aulas regulares de harmonia e análise musical com Antônio Guerreiro, Carlos Alberto Figueiredo e Vittor Santos. Atualmente, curso o Doutorado em Interpretação Musical da Universidade Federal da Bahia, com orientação do professor Dr. Lucas Robatto, estudando a obra de Moacir Santos.”
O início desta formação musical se deu pelo método Orff – “com muito canto, jogos musicais e instrumentação simples nos instrumentos de teclado, como xilofones, metalofones, etc.”
Além disso, Andrea teve “um excelente treinamento de leitura musical ao piano, em método lúdico aplicado pela professora Elza Schachter. Ainda em teoria e solfejo, estudei no método de Bohumil Med. Na flauta, os principais métodos foram 'Método Completo de Flauta Transversal' de Taffanel & Gaubert (Ed. Irmãos Vitale), 'Método Ilustrado de Flauta', de Celso Woltzenlogel (Ed. Irmãos Vitale, 1982), estudos de autores variados e de diversas épocas. Em música brasileira, sempre estudei os choros de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e de outros autores do gênero, além dos autores ‘eruditos’, Villa-Lobos, Guerra-Peixe e Radamés Gnattali, por exemplo. Estudei também muito repertório de flauta barroco, clássico, impressionista e contemporâneo, e sempre pesquisei muito sobre a produção sonora do instrumento.”
De toda esta formação, “o que ficou de mais agradável é saber que a dedicação se transforma em progresso e crescimento artístico e que tudo o que se estuda acaba tendo uma aplicação na vida profissional. As relações humanas e amizades feitas a partir da música são uma grande alegria.”
E as pessoas decisivas em todo o processo musical de Andrea são “minha mãe, Odette, na conscientização de que arte e profissão podem caminhar juntas, sem precisar fazer concessões estéticas. O arranjador Ruy Quaresma me introduziu no ambiente de gravações profissionais, nos anos de 1980. O encontro com Carlos Malta, no grupo Pife Muderno, estimula uma atuação vigorosa, além de ser o trabalho que me leva a conhecer tantos lugares do mundo. Moacir Santos me trouxe um novo impacto artístico.”
Mesmo com tantos estudos formais, o autodidatismo, para Andrea, faz parte da vida de um músico. “Sozinha, aprendi que é necessário ter autonomia na busca de soluções para os ‘problemas’ musicais. Detalhes de expressão e interpretação musical se mostram às vezes sutilmente, e desenvolver a perspicácia na escuta certamente te faz ser um músico melhor. Acho que o autodidatismo é conseqüência de circunstâncias de vida, e ele se apresenta em diferentes níveis. Todo músico é um pouco autodidata, vai acumulando e processando experiências que lhe garantam a sobrevivência artística e material. Mas é preciso desenvolver uma estética pessoal, baseada em uma escuta sem preconceitos.”
Andrea Ernest Dias tem, em relação aos músicos com os quais conviveu e convive, “enorme respeito por aqueles de gerações que antecederam a minha; tive a sorte de tido contato e gravado com, por exemplo, Chiquinho do Acordeom, os trompetistas Hamilton Cruz e Formiga (José Pinto), o saxofonista Biju, os flautistas Franklin da Flauta e Mauro Senise, o bandolinista Joel Nascimento, o violonista Baden Powell, o saxofonista Zé Carlos Bigorna, os ‘campeões’ Hermeto Pascoal e Moacir Santos. O contato com compositores e arranjadores da MPB, como Cristóvão Bastos, Leandro Braga, Ruy Quaresma, Wagner Tiso, Eduardo Souto Neto, Nelson Ângelo, Maurício Carrilho, Jaques Morelenbaum e Mário Adnet, entre tantos, também me é muito caro em minha formação. O encontro com o pianista Tomás Improta me proporcionou uma nova perspectiva musical. Com músicos da minha geração, como Carlos Malta, Marcos Suzano e o saxofonista Eduardo Neves mantenho um diálogo musical vibrante e constante.”