Formação
Na família de Carlos Barbosa-Lima não há outros músicos, mas sim o gosto pela música. Sua mãe apreciava, em especial, ópera e música brasileira, e seu pai, o jazz.
O descobrimento da música, para ele, deu-se "como um amor à primeira vista. Meus pais, quando eu ainda era muito pequeno, tocavam música pensando que, com isso, me ajudavam a dormir. Acontecia justamente o contrário, eu acordava e ficava desperto até de madrugada."
O interesse pelo violão deu-se mais ou menos aos sete anos de idade. Seu tio tocava um pouco e seu pai quis aprender também. "Ele contratou um professor que morava perto de casa. Foram uns sete ou oito meses sem progresso nenhum. Eu ficava assistindo às aulas e tinha um interesse tremendo por aquilo. Só de escutar, já comecei a tocar."
O pai de Carlos Barbosa-Lima desistiu da tentativa de aprender e decidiu destinar as aulas, já pagas, ao filho. "Foi assim que meu interesse desenvolveu-se desde pequeno. Comecei a estudar, a levar a sério. Passou a fazer parte da minha vida."
Seu primeiro professor foi Benedito Moreira. Com ele, aprendeu teoria musical e elementos da escola clássica violonística, com foco no repertório de música popular, além de estudar o escasso material disponível publicado no Brasil à época: "A Escola de Tárrega" (Ed. Irmãos Vitale), de Osvaldo Soares, e"Técnica Diária do Violão" (Ed. Ricordi), do uruguaio Isaias Sávio, que se tornaria posteriormente seu maior mestre.
Carlos Barbosa-Lima recorda-se das impressões desses seus estudos: "Foram dois anos em que progredi muito rápido. Escutava também música no rádio, aparentemente recriando o que seriam possivelmente meus primeiros rudimentos de arranjos."
Em 1955, um amigo de seu pai, Francisco Del Vecchio, dono da fábrica e loja de violões que levam seu sobrenome, marcou um encontro entre Carlos Barbosa-Lima e o violonista Luiz Bonfá, cuja carreira, naquele momento, já alcançara projeção.
Luiz Bonfá, ao ouvi-lo tocar, recomendou-o imediatamente a Isaias Sávio, "mestre dele, de meu primeiro professor e de muitos instrumentistas brasileiros. Foi Isaias Sávio quem estabeleceu no Brasil a verdadeira escola violonística e a modificou de acordo com a evolução dos alunos e suas necessidades."
"Luiz Bonfá, de imediato, deu-me um conselho. Eu roia as unhas, ele me disse pra deixar crescer, e colocou pimenta malagueta nelas. Parei em seguida. Ele também me explicou os fundamentos da técnica mais tradicional, com o objetivo de se poder tirar som do violão - usar unha de tamanho de curto pra médio, tirar som com a unha e com a polpa do dedo, por exemplo."
Carlos Barbosa-Lima, seguindo a recomendação de Luiz Bonfá, foi fazer a audição com Isaias Sávio. O renomado professor, entusiasmado com o que ouvia, pressionou-o a decidir sobre levar ou não o violão a sério. "Ele me pôs contra a parede, dizendo: ‘Se você quiser, tem todas as condições, mas não vou tratá-lo como criança, e sim como adulto. Diga agora, já, se você quer tomar isso a sério e não como hobby, para então a gente montar aqui um plano de estudos muito bem feito."
Sávio passou a dar-lhe aulas particulares, uma vez por semana, à noite, depois do colégio. Carlos Barbosa-Lima precisou, logo cedo, disciplinar-se para corresponder às diferentes exigências de estudo.
O conteúdo das aulas baseava-se mais fundamentalmente em repertório e menos em exercícios mecânicos. "Mestre Sávio fez um plano para dois anos, com o objetivo de reformular um pouco ou restabelecer a fundação da técnica instrumental. Eu era pequeno, tinha nove anos, mas minha mão esquerda já estava bem colocada."
O esquema das aulas de Isaias Sávio foi mudando de ano em ano. "No fim, ele era mentor apenas, vinha uma vez por mês. Era um homem de formação humanista e com diversos interesses, inclusive pela música popular brasileira."
Àquela época, havia sido publicada no Brasil, pelo selo Schott, uma coleção com obras originais de autores que escreveram para o violonista espanhol Andrés Segovia. O professor inseriu esse material no repertório de Carlos Barbosa-Lima, acompanhado de obras de outros compositores recém editados no país, entre eles, Villa-Lobos. "Aquilo me estimulou muito."
A música de Dilermando Reis, muito tocada nas rádios, também passou a conviver com outras obras, por sugestão de seu mestre, que ainda introduzia, nas aulas, conceitos de filosofia e de história, e permitia que o violonista fizesse uso do que havia de repertório em sua vasta biblioteca musical. "Algumas das obras não estavam nem sequer publicadas, como as de Agustín de Barrios, que eu tive que copiar à mão."
As peças selecionadas por seu professor para seus estudos tornaram-se, posteriormente, o repertório do seu primeiro disco, "Imortal Catulo" (Chantecler, LP/1964).
Mais tarde, Carlos Barbosa-Lima estudou com o maestro Teodoro Nogueira. "Tínhamos aulas de harmonia, contraponto e análise, sempre à noite, ou em sua casa, ou na minha. Até hoje, nesse período, eu produzo em duas horas o equivalente a oito."
O instrumentista foi aluno, ainda, do compositor e maestro uruguaio Guido Santórsola.
Apesar dos grandes mestres que guiaram sua formação, Carlos Barbosa-Lima sempre deu espaço "para o instinto. Faço uso dele até hoje, e ele geralmente é correto. Se estou confuso, é só seguir o instinto que obtenho a resposta."
O músico não acredita no aprendizado autodidata, comparando as pessoas a esponjas, que absorvem o conhecimento no entorno e o transformam, "na observação do outro e na capacidade de ser professor e aluno ao mesmo tempo."
Sozinho, o músico estabeleceu seu sistema de estudos e sua maneira de trabalhar. "Naturalmente era organizado, precisei logo ser disciplinado, e instintivamente comecei a organizar meu horário."
Dentre as figuras mais importantes em sua formação, destacam-se seus pais, por conta dos quais o músico começou a tocar; Isaias Sávio, "o ponto crucial", e Guido Santórsola, "que me levou pra uma outra dimensão." O maestro iniciou-o na revisão do estudo de harmonia, e o violonista passou a fazer arranjos. "Foi ele quem me ajudou no primeiro projeto forte de arranjo e com o qual fui premiado, "Imortal Catulo" (Chantecler, LP/1964)."
"Por exemplo, se havia algum material disponível a respeito do qual eu já me dava conta de questões na harmonia, Guido Santórsola me dava um ‘alinhavado’, sugerindo aqui um contraponto e ali outra idéia, visitando-me de vez em quando para rever comigo o trabalho."
Além deles, Carlos Barbosa-Lima ressalta o aprendizado adquirido por meio da transcrição de obras, proposto por Teodoro Nogueira, "que me jogou na piscina sem eu saber nadar. Comecei com transcrições de Ernesto Nazareth. Eu, por minha conta, procurava o que ficava bem." E resume: "Transcrever é uma arte que, quanto mais se faz, mais se aperfeiçoa."
Teodoro Nogueira aconselhou o instrumentista a ouvir outros gêneros e formações musicais, para ampliar seu universo. Suas sugestões incluíam jazz, música de orquestra e de câmara.
O rádio foi importantíssimo para a formação musical do violonista, em especial por dois programas da Rádio Gazeta de São Paulo, "Sua Majestade, o Violão", apresentado por Ronoel Simões, com repertório variado de música popular brasileira, e "Música dos Mestres", dedicado à música clássica.
Carlos Barbosa-Lima salienta a relevância do contexto social e cultural das décadas de 1950 e 60, em que sua formação básica aconteceu. "Fui muito exposto a tudo, numa São Paulo cosmopolita. Os anos 1950 foram muito bons: a televisão recém surgindo e as rádios com programação muito seletiva. Havia muita coisa acontecendo no Brasil - até 1964, ano em que começou a derrocada."
(n. e.: o músico refere-se ao golpe militar que, naquele ano, instalou uma ditadura no Brasil, que duraria por 21 anos)
Entre os músicos com quem conviveu, Carlos Barbosa-Lima destaca, ainda, a importância de Luiz Bonfá, Andrés Segovia, com quem teve aulas em 1968, João Carlos Martins, "grande amigo que me apoiou quando saí do Brasil", Charlie Byrd e Bobby Scott.