Formação
O pai de Gilvan de Oliveira, que morreu pouco antes que ele nascesse, era violonista e tocava, também, outros instrumentos de corda, como viola e bandolim. Os que puderam ouvi-lo, diziam que ele tocava muito bem, ao estilo de Dilermando Reis, Américo Jacomino, o Canhoto e João Pernambuco.
“Meu avô materno, Sô Guilé (Guilhermino de Brito), era sanfoneiro de 8 baixos e tocava xotes, valsas, guarânias, modas de viola, fazia bailes de sanfona. Morreu aos 96 anos, e sempre tocava. Tocamos juntos, ele já com mais de 80, e era emocionante, principalmente quando ele me pediu pra ensiná-lo a tocar a “Chalana” – de Arlindo Pinto e Mário Zan - e aprendeu de primeira. Era virtuoso e tinha uma memória fabulosa, lembrava de todo o seu repertório, queria que eu tocasse sanfona como ele. Minha mãe, Conceição de Brito Oliveira, gostava de cantar quando meu pai tocava e, junto com a irmã, minha tia Maria dos Reis, às vezes cantava em dupla. Meu tio, Elio de Brito, cantava no grupo de baile de Itaú de Minas e foi um dos responsáveis pelo meu ingresso na vida de músico, convidando-me para tocar bateria, meu primeiro instrumento, no grupo de baile Os Átomos, quando eu tinha 12 anos. Meu outro tio, Baltazar de Brito, tocava bumbo na Banda de Música e me levou a tocar em carnavais na mesma época.”
Os bailes na casa de seus avós estão entre as muitas lembranças musicais da infância de Gilvan de Oliveira.
“Bailes com ‘radiola’ ou ‘eletrola’. Todos da cidade de Itaú que tinham discos levavam. Assim, eu ouvia de tudo. O que me lembro de mais antigo é o fato da minha mãe dizer que, quando eu tinha cinco anos ou menos, gostava de ouvir ‘Saudade da Bahia’, do mestre Dorival Caymmi, e ‘Adelita’, com Nat King Cole. Me lembro especialmente de alguns discos em 78 rotações; são os que vêm à minha memória e ainda vejo seus rótulos. Sempre que me perguntam o que eu ouvia na infância, são eles que me vêm: ‘Saudade da Bahia’, de Caymmi, ‘I can't stop loving you’, com Ray Charles, ‘Strangers in the night’, com Frank Sinatra, ‘Rei do gado’, se não me engano com Tião Carreiro e Pardinho. A partir daí, me lembro dos discos com oito faixas de Glenn Miller e Tommy Dorsey, entre outros, depois dos LPs e dos compactos simples e duplos, isso lá no começo dos anos 1960, e aí me lembro de quase tudo que ouvi em rádio, eletrola e bailes: samba, canções, bossa nova, twist, rock, clássicos, baladas, jovem guarda, jazz...”
Como já dito, o primeiro instrumento que Gilvan de Oliveira tocou foi a bateria.
“Comecei aos 11 anos de idade, de ouvido é claro, e logo entrei para uma banda de meninos entre 11 e 15 anos, chamada Os Pequenos Lords, que fazia pequenas apresentações. Aos 12 anos, fui convidado a tocar bateria no grupo de baile Os Átomos. Aí, tive que ter autorização para tocar das 11 da noite às 4 da manhã. Meu tio Elio - 10 anos mais velho do que eu - era o responsável por mim na banda, da qual ele era o cantor. Toquei no grupo até os 15 para 16 anos. Foi nesse período, entre os 12 e os 13 anos, que comecei a me interessar pelo violão. Aprendi com os amigos da banda dos meninos e vendo os músicos do grupo de baile, completamente de ouvido e intuitivo. Eu tinha então, e creio que ainda tenho, mais voz do que meus amigos mas, por timidez, não cantava, preferia acompanhar ou fazer o ‘solo’. Assim, me vi um dia tirando melodias e harmonias. Naquele tempo, lá em Itaú, onde fiquei até os 17 anos, os métodos de violão que existiam eram os de Canhoto (n. e.: “Método Para Violão”, de Américo Jacomino, o Canhoto, Casa Manon) e Paraguassu (n. e.: “Método Prático Para Violão, Ed. Irmãos Vitale), que apresentavam os acordes básicos com algumas seqüências. A gente tinha mesmo que tirar música ouvindo discos, rádio e com os amigos.”
Aos 16 ou 17 anos, Gilvan conheceu o "Método Paulinho Nogueira: Harmonia" (J. Quadros, Editores Culturais, 1968).
“Foi um método que mudou minha vida, foi muito importante, pois foi o primeiro método no qual vi acordes ‘dissonantes’, que eram os acordes com sétima maior, sexta, nona, inversões, etc. Só sei que aprendi muito rápido e logo conseguia tirar músicas que meus amigos não conseguiam, pois diziam que tinham acordes dissonantes difíceis. Eu sentia diferença quando ouvia algumas músicas e, ao tentar tocar junto, o som não era igual. Com o método do Paulinho Nogueira, passei a ler cifras mais complexas e a tirar músicas de ouvido, como ‘Garota de Ipanema’, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ‘Eu e a brisa’, de Johnny Alf, ‘Travessia’, de Milton Nascimento e Fernando Brant, ‘Carolina’, de Chico Buarque, ‘Primavera’, de Cassiano e Sílvio Rochael, que Tim Maia cantava. Nessa época estudei também piano clássico por uns dois anos com a professora de piano da cidade, Dona Iracema. Foi quando aprendi a ler música e passei a ter um gosto muito grande também pela música erudita.”
“Além do método de Paulinho Nogueira, que foi pra mim o mais importante dessa época, comprei um método para violão erudito de Roberto Silva, que era tudo na pauta, e tirei algumas coisas dele. Tinha, também, o método de Fernando Azevedo que se parecia, de certa forma, com o método do Paulinho Nogueira (n. e.: Fernando Azevedo é autor de diversos métodos para violão, guitarra e contrabaixo, todos pela editora Bruno Quaino). Fiquei em Itaú até 1973 e, nessa época, já tinha passado da bateria para o violão e também tocava guitarra. Fiz meu último baile como baterista em 1971. Mudei para Belo Horizonte em 1974, para estudar engenharia elétrica, na Universidade Católica (PUC - Minas hoje). Lá, comecei a participar de pequenos shows como solista e a compor temas instrumentais e canções, sozinho e com alguns parceiros, principalmente Denis Soares, amigo desde o tempo dos Pequenos Lords. Em 1975, criamos um trio de violões chamado Pé de Guerra, formado por Denis Soares - hoje engenheiro eletricista, continua tocando e cantando muito bem -, Marden Maluf - formado em regência na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mas que estudava engenharia mecânica, se não me engano – e eu. Creio que foi meu primeiro show, tocávamos músicas nossas, instrumentais e vocais, e interpretávamos compositores de que gostávamos. Entre 1975 e 1977, conheci pessoalmente muitos nomes importantes da nossa música, como João Bosco, Fagner, Geraldo Azevedo, Canhoto da Paraíba, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Antonio Adolfo e Darci Villaverde. 1978 foi um ano importante e marcante pra mim, pois conheci pessoalmente Turíbio Santos, que esteve em Belo Horizonte para apresentações do Projeto Pixinguinha, junto com Alaíde Costa e Raphael Rabello, que tinha uns 16 anos na época. Bem, pedi ao Turíbio que ouvisse um arranjo meu de ‘Lamentos’, de Pixinguinha. Ele gostou e me perguntou se eu estudava violão, pois tinha uma boa mão direita. Eu disse que não e ele me recomendou estudar com aquele que foi o meu grande mestre e professor, José Lucena Vaz. Estudei com ele na Universidade Federal de Minas Gerais, primeiro no curso básico e depois no curso de graduação. Ele utilizava os métodos de Isaias Sávio e Abel Carlevaro, principalmente, além do de Henrique Pinto (n. e.: são diversos os métodos de violão escritos por estes três mestres). Estudei Villa-Lobos, Tárrega, Bach, Leo Brouwer, Fernando Sor, Mauro Giuliani, Agustín Barrios, Joaquin Rodrigo, Torroba, Isaac Albeniz, e João Pernambuco, entre outros. Estudei em vários métodos de improvisação, harmonia, composição e arranjos, a maioria escrita por norte-americanos, como Samuel Adler (“The Study of Orchestration”, Ed. Norton); Ramon Ricker (“New Concepts in Linear Improvisation – A Practice Method for all Instruments”, Ed. Alfred); Vincent Persichetti (“Twentieth-Century Harmony”, Ed. Norton); ‘Thesaurus of Scales and Melodic Patterns’ (Ed. Music Sales Corp.), de Nicolas Slonimsky; Jerry Bergonzi ("Thesaurus of Intervallic Melodies" Fagotto Books); William Leavitt (“A Modern Method for Guitar”, Ed. Hal Leonard); Pat Martino (“Jazz”, com CD, Ed. Hal Leonard); Gil Goldstein (“Jazz Composer’s Companion”, Ed. Jamey Aebersold); Dan Haerle (“Scales for Jazz Improvisation – A Practice Method for all Instruments”, Ed. Warner), Jamey Aebersold - livros e play-alongs ("Aebersold Play Alongs”, Editora Jamey Aebersold, 1967); Joe Pass (“Guitar Style", Ed. Alfred); Ian Guest (“Harmonia, Método Prático”, 2 vols., e “Arranjo, Método Prático”, Lumiar Editora), etc.
Eu compro tudo que aparece. Como aprendiz e como professor, tudo me interessa sobre todos assuntos ligados à música e aos instrumentos. Tenho, também, muitos livros sobre história da música, seja brasileira - popular, erudita e folclórica -, norte-americana - jazz, rock e blues -, erudita, ou de cinema. Estudei também com Joe Diorio da G.I.T. (Guitar Institute of Technology), de Los Angeles (EUA), num breve curso que ele deu no Rio de Janeiro, mas que muito me influenciou e mudou minha concepção de solo, improvisação e, também, de didática e pedagogia, e com Sérgio Benevenutto - músico brasileiro formado na Berklee College of Music, em Boston, EUA.”
E de todo esse processo, o que ficou de mais útil e agradável para Gilvan de Oliveira?
“Difícil dizer. Eu aprendo com todos com quem toco, converso, e com aqueles a quem ensino. Ouço, leio, indago, mas há algumas coisas bem interessantes. São frases que mestres, músicos, amigos de ofício me disseram, que me marcaram, e que eu utilizo até hoje para mim mesmo e digo para aqueles a quem ensino, tais como:
- de Moisés Mandel (que conheci em Ouro Preto, no 1º Seminário Brasileiro de Música Instrumental, em 1986): ‘O iniciante tem que ter o melhor mestre’;
- de Amilton Godoy, do Zimbo Trio: ‘A pior coisa para o músico é o instrumento que ele toca’, um paradoxo lindo;
- de José Lucena: ‘A primeira coisa a fazer é magnetizar a platéia’;
- de Oswaldinho do Acordeom: ‘Temos de tratar a música bem, com respeito e amor, senão ela vai embora, nos abandona’;
- de Joe Diorio: ‘A música não precisa de nós, nós é que precisamos dela. Essa pretensão em querer acrescentar algo à música existente é que nos torna músicos’;
- de Marcus Tardelli - saiu num papo e é ótima -: ‘Detesto violão, adoro música’.
O mais agradável, útil e mágico que me mantém ligado, atento e talvez seja a maior lição é o fato de me considerar um eterno aprendiz.”
Entre os mestres que encontrou durante sua formação musical, Gilvan aponta o professor José Lucena Vaz como fundamental.
“Ele foi decisivo na minha vida pois, além da formação do intérprete em violão erudito e não erudito, se mostrou um mestre sem preconceitos - uma vez que o violão permite uma imensa variedade de estilos, gêneros e linguagens -, mudando meu foco como músico, mostrando a abrangência do instrumento, me preparando técnica e profissionalmente, pois me levou a trabalhar numa escola de música como professor. Outro mestre importante foi Joe Diorio, do G.I.T. (Guitar Institute Of Technology), de Los Angeles, quando esteve no Rio de Janeiro para dar cursos de guitarra e improvisação, e me trouxe uma nova luz sobre técnica, improvisação e ensino.”
Em que pesem os mestres, já vimos pelo relato de Gilvan de Oliveira que grande parte de seu aprendizado deu-se nos “bailes da vida”, a partir da observação e do estudo por conta própria, autodidata.
“O violão é um instrumento que se aprende de ver e ouvir, pois tudo que o músico faz fica à mostra não só auditivamente mas, também, visualmente. Você ouve e vê os acordes, as escalas, a música. Eu tocava bateria, que aprendi ‘de ouvido’, e violão aprendi com os amigos que já tocavam, até o dia em que consegui, como disse anteriormente, o método de Paulinho Nogueira. Aí, aprendi acordes novos que abriram meus ouvidos e, sozinho, tirando música de ouvido, comecei a evoluir, a compreender gêneros e estilos mais sofisticados, a ter uma harmonia mais moderna. Hermeto Pascoal uma vez me disse que mais 90% dos músicos do Brasil começaram tocar ‘de ouvido’. Ouvir música, seja em discos ou rádio ou apresentações, é ainda uma grande escola. No passado, principalmente, os músicos para gravar ou tocar num programa de rádio ou TV tinham que ser muito bons. Então, a gente aprendia com quem tocava bem. Imagine, uma vez eu tirei ‘O Astronauta’, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Foi o máximo, até há pouco tempo não existia partitura nenhuma de violão solo não erudito, não havia songbooks, etc., quem não tirasse música de ouvido não tocava. E pensar, também, que no Brasil só foi aparecer escola boa de música não erudita a partir dos anos 1970, mesmo assim poucas, e só depois dos anos 1980 é que começou uma maior proliferação. Veja só, como que eu podia tocar, por exemplo, as músicas de Milton Nascimento, de Chico Buarque, eu morando no interior, onde às vezes chegava uma revistinha com cifras muito precárias? Ainda hoje nos Estados Unidos, todas as escolas de música, principalmente de jazz, rock, blues, incluem o treinamento auditivo em seus cursos e alguns mestres pedem aos alunos que tirem solos mais complexos como, por exemplo, ‘Donna Lee’, de Charlie Parker, e a partir daí ensinam os fundamentos da música. Wagner Tiso conta que ele e o Bituca - Milton Nascimento -, ouviam a rádio Nacional aos sábados esperando a hora do programa com os instrumentos nas mãos. Era assim que eles tiravam música. Só que eles só podiam ouvir novamente para conferir ou acabar de tirar a música, caso não desse tempo, no sábado seguinte. Enquanto isso, eles ‘inventavam’ a parte que faltava para a música. Foi como começaram a compor, isso é maravilhoso.”
Dos músicos de sua convivência que foram importantes para o músico que ele é hoje, Gilvan diz:
“Tem muita gente, vou falar de alguns: Milton Nascimento, um gênio, uma revolução como compositor e como cantor, um dos maiores de todos os tempos. Cada obra prima do Bituca, e são tantas, é uma porta para aprender muito sobre música. Toninho Horta, mestre da harmonia. Aprendi muito com o Toninho: a ampliar o leque de harmonia, inversões de acordes, a re-harmonizar, o bom gosto tanto pra solo quanto pra acompanhamento. Baden Powell é um divisor de águas do violão brasileiro e do mundo pra mim. Tivemos um encontro em Belo Horizonte e tocamos durante a noite toda. Tanto Baden como Toninho Horta me ensinaram a fazer música. Os dois, além de fazer música para o instrumento, são grandes compositores de canções e isso me influenciou muito. Leo Brouwer: fui assistente dele durante uma masterclass, no Festival de Guitarra de Cuba, onde fui tocar, como convidado, meus arranjos de música brasileira, em 1994. Tocamos juntos e fiquei muito impressionado com o conhecimento universal que Leo Brouwer tem. Tocamos Beatles juntos, ele me deu uma aula de ornamentos barrocos, instrumentação, falamos de Milton Nascimento, Agustín Barrios, Xangai, de quem é fã. Tudo interessa a ele, aprendi muito sobre a pedagogia do instrumento, técnica e performance com ele durante os 15 dias em que fiquei em Havana. Dori Caymmi, Dominguinhos, Oswaldinho do Acordeom, Juarez Moreira. Aprendi muito e ainda aprendo ouvindo-os, com seu jeito muito particular e original de fazer sua música.”