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Fernando Moura
* 14/06/1959 Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Instrumentista, arranjador, compositor.
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Não há outros músicos profissionais ou amadores na família de Fernando Moura. "Entretanto, houve quem, com seu comportamento incomum e seus gostos às vezes excêntricos, me mostrasse pela primeira vez que cada um de nós é artista único da própria vida, não importando a profissão que escolha."

Algumas de suas lembranças musicais mais antigas vêm do toca-discos do pai, na qual ouvia discos de jazz, bossa nova e de Elis Regina. "Eu, que era uma criança muito ativa, parava e ficava ouvindo, fascinado, a mágica que saía dali de dentro."
 
Na escola em que entrou aos quatro anos de idade havia aulas de música e uma pequena banda. "Depois de muito pouco tempo, vendo que eu já havia tocado todos os instrumentos - menos o pandeiro, que era de uso exclusivo de meninas -, a professora chamou minha mãe e disse que seria bom arranjar uma maneira de eu aprender música, pois em dois meses tinha feito o que as outras crianças levavam um ano para desenvolver."
 
Fernando Moura fez aulas de piano com Mercedes Messias Cardoso, professora do Conservatório Brasileiro de Música, que morava perto de sua casa. "Minhas memórias de 45 anos atrás podem me trair, mas lembro-me de que ela tocava muito bem o repertório romântico de piano, assim como os outros professores que tive: Guilherme Vaz, de harmonia e composição, e Joanne Brackeen, com quem estudei improvisação e harmonia de jazz. Isso sempre me fez dar muita importância à performance e à execução como músico, bem como ao estudo diário do instrumento, mesmo nesses tempos de música em computador."
 
Dos métodos e livros que utilizou em seus estudos, recorda-se de "Estudos para Piano" (Ed. Ricordi), de C. Czerny; "Exercícios Técnicos Diários" (Editora Irmãos Vitale), de O. Beringer; "A Primeira Hora de Estudo", (Editora Irmãos Vitale), de G. Bull,  "e o lendário "O Pianista Virtuoso" (Ed. Irmãos Vitale), de Hanon, que até hoje me salva nas excursões e temporadas no Japão."
 
De tudo o que aprendeu, Fernando Moura destaca a importância do estudo diário, "que não é nenhum sacrifício para mim, apesar de não trazer nenhum prazer musical em si. Durante duas horas, não só minhas mãos ficam preparadas, mas minha cabeça se organiza para os diferentes projetos musicais em que estou trabalhando. Claramente, isso é uma herança do estudo da música erudita e que não está necessariamente no mundo da música popular, com a qual trabalho hoje em dia, mas me ajuda muito."
 
Para ele, além de seus professores, uma das figuras decisivas em sua formação foi o cantor e compositor Zé Ramalho, com quem trabalhou e desenvolveu seu interesse e habilidade com sintetizadores e teclados, parte importante de sua atividade profissional: "Um de seus grandes sucessos na época era sua música "Avôhai", que havia sido gravada por Patrick Moraz, tecladista do Yes na época, com as partes mais importantes da música executadas em teclados como o Minimoog e o ARP Omni. Só conhecia esses teclados de fotos em revista e achava que não eram para mim, apesar de ser fã de Keith Emerson, do grupo Emerson, Lake & Palmer, que também vinha da música erudita, como eu. Para ser aprovado no trabalho de Zé Ramalho, teria que aprender em duas semanas a tocar pelo menos o Minimoog e, em pouco mais de dois meses, começar uma excursão de 60 shows pelo Brasil. Apesar de meu desapontamento inicial de pianista com o Minimoog por ele ser monofônico, encarei o desafio - o que para mim foi uma sorte, porque decididamente a música popular não prescinde do uso de teclados: saber usá-los e conhecer suas características e limitações é absolutamente indispensável no mundo profissional."
 
Sobre o aprendizado autodidata, Fernando Moura recorda que, na época em que decidiu profissionalizar-se, o material para formação dos músicos no Brasil era raro e fragmentado: "Há 30 anos, não tínhamos escolas para música popular; lembro-me, por exemplo, do pânico que foi para mim, um pianista capaz de executar sonatas deL. V. Beethoven e estudos de F. F. Chopin, aprender, no primeiro conjunto de baile em que toquei, ‘Jumpin' Jack Flash’, de Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, com seus dois acordes na primeira parte e quatro na segunda. Fui salvo por uma gravação do Concerto para Bangladesh (n. e.: evento beneficente organizado por George Harrison e Ravi Shankar,  em 1971) em que havia uma versão da mesma música com o pianista Leon Russel fazendo o riff básico de guitarra ao piano, que fiquei horas ouvindo para entender como ele fazia. Tive que fazer, sozinho e por tentativa e erro, essa transição da música erudita, escrita, para a popular. Não existiam escolas com professores bem formados como hoje. A escola americana de música Berklee, mito entre os músicos da minha geração, estava completamente fora de cogitação por motivos econômicos para a minha família. Eu também tinha que vencer uma certa dúvida a respeito das possibilidades de sobreviver como músico profissional no Brasil do final dos anos 1970, tendo como única arma uma boa formação de pianista erudito, mas sem querer seguir os caminhos das salas de concerto. Já ao final dos meus estudos no Conservatório, compor interessava-me muito mais do que aprender aquelas músicas difíceis do programa anual obrigatório do curso de piano."
 
Outra barreira que teve que transpor sozinho foi a distância tecnológica e a dificuldade de informações nessa área, no início dos anos 1980. "Tive que aprender a tocar e a programar sintetizadores por necessidade de trabalho; era bastante claro que a música se desenvolveria cada vez mais nessa direção, só que não havia com quem aprender, de jeito nenhum. A chegada de novos instrumentos e novas formas de síntese como a ‘frequency modulation’ trazida pelo DX-7 da Yamaha, em 1983, significava para mim períodos enormes de experimentação e leitura de manuais para não ficar apenas usando os sons que vinham programados de fábrica - os ‘presets’ - e que não satisfaziam à minha imaginação. Sabia que todo aquele mundo proporcionaria caminhos incríveis para novas sonoridades em minhas composições, mas não queria usá-los apenas como substitutos de instrumentos - e de músicos - tradicionais. Tive que abrir meu caminho sozinho a partir da experimentação e da leitura de revistas estrangeiras, como a Keyboard Magazine americana."
 
Além de seus professores, entre os músicos com quem conviveu e convive, Fernando Moura destaca Steve Hackett, guitarrista do grupo inglês Genesis, que gravou um disco no Brasil intitulado "Till We Have Faces” (Camino Records, LP/1983), do qual participou como instrumentista e, pela primeira vez, trabalhou com sequencers digitais. "Por conta da juventude e do ímpeto musical próprio dela, ficava sem entender porque não tocávamos a música do início ao fim ao invés de gravar parte por parte, com correções minuciosas e de um nível de detalhe absurdo para mim, na época. Steve Hackett voltou para a Inglaterra, terminou o disco com todas as edições e melhoramentos que a tecnologia da época permitia, e então entendi aquele novo caminho de composição programada, que engatinhava nos anos 80 e que prevalece até hoje, principalmente no mundo das trilhas sonoras, área de atuação muito importante em minha carreira."
 
Outro músico que marcou sua formação foi George Martin, com quem trabalhou no Projeto Aquarius em 1992, no Rio de Janeiro, num programa dedicado à música dos Beatles com a participação da Orquestra Sinfônica Brasileira e de um quinteto com duas guitarras, baixo, bateria, piano acústico e teclados. "Nunca havia tocado com uma orquestra sinfônica, embora tivesse escrito e gravado diversos arranjos com pequenos grupos orquestrais. A sensação de estar ali dentro da orquestra, respirando aquelas harmonias perfeitas e aqueles timbres maravilhosamente modernos, embora produzidos por instrumentos tradicionais, mudou muita coisa para mim como arranjador."
 
Dos brasileiros, Fernando Moura cita Chiquinho de Moraes, ao lado de quem tocou na banda formada para a entrega do Prêmio Sharp de 1993: "Entrei substituindo um colega, já com os ensaios em andamento, e fui me encontrar com o maestro no hotel em que ele estava hospedado para pegar as partituras para meu primeiro ensaio no dia seguinte. Ao perceber minha reação àquelas partes de piano escritas para mão esquerda e mão direita, que já não via há muito tempo pois havia me desligado completamente de tocar música erudita, Chiquinho de Moraes falou uma frase que sempre me serve de guia em situações semelhantes: ‘Quanto mais difícil parecer um trabalho, procure ficar mais calmo, porque só assim você vai conseguir’. Sua atitude de liderança, vibração e conhecimento diante da orquestra influenciou-me muito e serviu de exemplo para muitos trabalhos que realizei."

 

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