Formação
João aprendeu viola bem cedo, imitando os cantadores do nordeste brasileiro, sua terra natal. Existem registros de que tocava viola em conjuntos regionais de Recife já aos 12 anos de idade. Também com os cantadores iniciou-se ao violão, que tocava muito bem quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 1904.
No Rio, por um desses acasos sem explicação, João Pernambuco foi morar numa pensão do centro da cidade onde viviam
Pixinguinha e Donga. Passou, então, a conviver com os primeiros chorões, no ambiente de intenso aprendizado mútuo e competição que caracterizava a vida musical da época, na qual músicos tipicamente populares se misturavam a compositores sofisticados, porém atentos às novas manifestações, como Villa-Lobos.
As lojas de instrumentos do Rio de Janeiro mantiveram durante décadas a tradição de ter professores conhecidos dando aulas em suas instalações. Numa delas, o Cavaquinho de Ouro, João Pernambuco encontrou
Quincas Laranjeira – um dos criadores do estilo brasileiro de tocar violão, e um dos primeiros professores a ensinar violão por música no Brasil.
Quincas tornou-se seu primeiro e único professor.
Para que se tenha uma idéia da formação violinística no início do século XX, vale lembrar que, quando João Pernambuco nasceu, Andrés Segovia, o violonista que levou o instrumento definitivamente para as salas de concerto e a quem Villa-Lobos viria a dedicar seus “Estudos”, sequer era nascido - Segovia nasceu 10 anos depois de João Pernambuco. Francisco Tárrega - violonista clássico espanhol a quem se credita a criação da escola moderna de violão, e um dos primeiros a dar respeitabilidade ao instrumento - tinha apenas 30 anos; suas obras, suas técnicas e seus métodos mal começavam a ser conhecidos na Europa.
O contato de João Pernambuco - e do meio musical brasileiro - com essas novidades se deu, certamente, através da violonista espanhola Josefina Robledo - aluna de Francisco Tárrega – que esteve no Rio de Janeiro em 1916 atuando intensamente como professora e concertista.
Uma evidência desse contato está no depoimento de Catulo da Paixão Cearense, letrista e parceiro de João Pernambuco: "
...é espantoso vê-lo e ouvi-lo executar produções de [Agustín] Barrios, [Josefina] Robledo, [Isaac] Albeniz, Levino [Albano] e outros, conhecendo apenas os rudimentos de música...".
É relevante lembrar também, sobre a sua formação, que João Pernambuco era nordestino, habituado às modas e improvisos de viola das feiras populares; era chorão, freqüentador das rodas de choro do Rio de Janeiro; e companheiro de negros nascidos ainda no tempo da escravidão, carregando no sangue e na memória recente a herança musical africana.