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Robertinho Silva
Roberto da Silva
* 01/06/1941 Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Instrumentista, compositor.
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Formação

Robertinho Silva foi o primeiro músico de sua família. "Meu pai nem bater palma sabia, mas meus irmãos eram batuqueiros, e aí é que começou a história. Quando eu era bem pequeno, uma vez esperando minha mãe servir o jantar, meus irmãos começaram a fazer batucada sobre a mesa. Quando vi aquilo, peguei uma latinha de fermento Royal, botei milho ou feijão, não me lembro agora, e saí tocando. Isso, ninguém pediu pra eu fazer. Aí pronto, nasceu a musicalidade."

Algumas de suas lembranças musicais mais antigas são os comerciais dos anos 1940, criados em ritmo de música de carnaval e veiculados no rádio. "Sabia vários de cor: 'Passa, passa o talco Ross, quero ver passar...'"
 
Robertinho Silva recorda-se, também, das celebrações de folias de reis que passavam na porta de sua casa. "Quando comecei a gravar com Milton Nascimento, ele dizia: 'De onde vem esse tambor? Que negócio é esse?' No Rio, eu carioca, falar em folia de reis? É porque passava na nossa rua, a gente corria daquele cara mascarado, isso fica na cabeça."
 
Seu primeiro contato com a bateria aconteceu ainda menino, por intermédio de um vizinho. "Morava no bairro do Realengo, que antes era brejo, área militar. Quando quiseram construir o chamado Instituto de Realengo e as casas de operários, os terrenos eram muito baratos e então meu pai comprou um. E como ele, outros alugavam quartos para militares que vinham do interior fazer concurso para oficial do exército. Eu estava louco pra tocar bateria, aí um vizinho comentou comigo sobre um soldado que alugava um quarto em sua casa e que tocava bateria. Era um sábado à tarde quando fui lá. Quando vi a porta do quarto aberta e olhei, o soldado perguntou-me se eu tocava, eu tive a ousadia de falar que sim. Eu sou carioca, o ritmo que deveria ter tocado era um samba, mas toquei um baião, porque meu pai era pernambucano e noventa por cento das festas lá em casa eram com forró. Era acordeom, zabumba e triângulo, e isso estava na minha cabeça direto. O samba era uma vez por ano, só na época de carnaval. Aí o começo foi assim. Através desse soldado chamado Jair."
 
"Consegui que ele fosse morar num dos quartos alugados pela minha família e, quando todos saíam para o trabalho e para o quartel, eu abria o quarto escondido de todo mundo, montava a bateria, ficava o dia inteiro estudando, desmontava e colocava tudo no mesmo lugar. Até o dia em que o Jair pediu-me pra dar uma canja num bar. E ali comecei."
 
A primeira vez que Robertinho Silva subiu num palco foi para tocar percussão. "No rádio ouvia-se muita música cubana: boleros, cha-cha-chás, rumbas, e eu tinha em casa um banquinho com som igualzinho ao de um bongô. Na época eu devia ter uns dez anos e ficava imitando o som dos caras no banquinho, acompanhando pelo rádio. A rumba era moda no Rio de Janeiro, então nos piqueniques nas praias da Zona Oeste tinha gente tocando rumba com aquela roupa de babado. Eu queria tocar um instrumento daqueles, e imitava os caras no banquinho, porque naquele tempo eu nem podia pensar em comprar um bongô. Apesar de não ter um instrumento, a primeira vez que subi num palco, o cara perguntou: 'Você toca bongô?', e eu falei, 'Eu toco!' Comecei fazendo baile num clube em Osvaldo Cruz."
 
Seus estudos começaram de maneira autodidata. Em torno dos 16 anos, teve seu primeiro professor, Sr. Albano, no bairro carioca de Bangu, com aulas de teoria e divisão musical, seguido de outro professor, cujo método não lhe agradou. "O nome dele era Joaquim Neagle. Ele passava divisão para baterista aprender a ler, era especialista naquilo, em ensinar a tocar samba sincopado. Mas fiquei ali por pouco tempo, ele não tratava o aluno legal, era muito grosseiro, se não chegasse com a lição na ponta da língua, batia na mesa, era horrível."
 
Passou depois a ser aluno do professor Alberto Mesquita, no Meyer, com quem também estudaram Edison Machado e Wilson das Neves. "Ele era percussionista da Orquestra Sinfônica, então tinha todos os métodos americanos para técnica de bateria. Eu queria saber de tudo, era muito estudioso, sonhava ser um baterista que viajasse o mundo. Tudo o que acontece hoje eu já sonhava quando garoto."
 
Robertinho Silva procurou o professor Mesquita por conta de Gene Kruppa, cuja história conheceu pelo cinema. "Ouvia falar de um baterista americano, até que um dia passei em Padre Miguel pedalando de bicicleta e vi escrito assim: 'Gene Kruppa, O Rei dos Tambores'. Falei pra mim mesmo: 'É hoje!'. Fiquei um mês dentro do cinema. Meu pai, que era marceneiro, tinha seu estoque de cola de madeira, que eu pegava, vendia pros garotos que faziam cerol e soltavam pipa, só para ir todo dia ao cinema ver a história do Gene Kruppa."
 
Seu interesse o fez chegar ao livro "Gene Kruppa Drum Method" (Ed. Warner Bros Publications). "Era tudo em inglês, então pensei: 'Tenho que estudar esse livro, tenho que arrumar um professor', e aí me indicaram o Mesquita."
 
Por conta de uma calça jeans, Robertinho comprou sua primeira bateria. "Fui pro Meyer atrás de uma calça Lee que um amigo tinha. Uma calça de brim, bonita pra caramba. No Meyer vi aquelas lojas, vi a calça Lee, que era muito cara, e aí andando pela calçada, vi uma bateria na vitrine de uma loja de eletrodomésticos. Pensei: 'Não quero calça Lee coisa nenhuma, é isso que eu quero.' Aí pedi pra minha mãe, o barbeiro lá do bairro emprestou o dinheiro e comprei minha primeira bateria."
 
Por volta de 1958, foi convidado por um saxofonista para montar um quinteto para tocar em bailes de quinta a domingo. "Fui ganhando um dinheirinho e investi no estudo. Entrei até num conservatório em Madureira. O movimento de bailes foi diminuindo mas continuei com o Mesquita, que me dava a chave da casa dele pra estudar, porque não tinha dinheiro pra fazer as aulas. A gente trabalhava o método de Gene Kruppa. Os métodos americanos antigos são assim: tem que estudar vinte vezes cada pauta pra depois passar pra outra, aí vai juntando e tal. Mas quando a gente é jovem, a gente não tem paciência, a gente acha que pode estudar a página do meio. Eu fui ouvir isso aí 30 anos depois, de um baterista americano chamado Tony Williams esteve no Brasil e foi convidado pra dar um workshop. Era mal-humorado pra caramba, não falava nada, o teatro lotado de gente. Aí um garotinho perguntou: 'Senhor Williams, o senhor estuda?' 'Eu não, eu estudei, eu pratico o que eu estudei', ele respondeu. Isso faz 30 anos. Depois de ouvir isso de Tony Williams, voltei a estudar de novo, e a estudar técnica mesmo."
 
Para Robertinho Silva, uma das figuras decisivas em sua formação como músico foi o soldado Jair: "Há 40 e poucos anos fui me apresentar com uma orquestra e fiz tudo para ele ir. Depois ele foi falar comigo às lágrimas, porque ficou lá dentro no exército e eu fui embora."
 
Muitas de suas referências musicais vieram do rádio: "Costumo dizer que vim da tradição para a modernidade. A Bossa Nova chegou, eu estava no começo, e mudou minha cabeça. Descobri o jazz sozinho, no rádio, não sabia o que era jazz. Não sabia que os caras famosos americanos eram os negros, a maioria era de negros, não sabia nada disso."
 
Nesse tempo, um amigo apresentou-lhe os discos de jazz. "Foi a classe média de Bangu que fez minha cabeça para ouvir. A vontade de conhecer era muito grande, então eu ouvia muito rádio, e Carlinhos me levou aos músicos americanos da sua discoteca. Como eu não tinha grana pra pagar aula, aproximava-me das pessoas que sabiam. Nunca andei com moleque da minha idade que não tinha nada a ver comigo, sempre andei com gente mais velha."
 
Sua curiosidade mantém-se como hábito até hoje. "Todo dia eu faço o 'samba da pergunta' aqui em casa. Se não sei, falo: 'Como é que se escreve isso daqui? Como é que se toca esse ritmo?' Tenho quatro filhos bateristas, e um dia perguntei pro mais novo, Tiago Silva: 'Como é que é esse negócio aí de manguebeat? Toca aí pra eu escrever.' Aí ele começou a me explicar e eu anotando tudo. Passada uma meia hora, ele falou: 'Viu, pai, tem um negócio chamado gravador.'"
 
Robertinho Silva considera o pianista e arranjador Wagner Tiso um dos músicos mais importantes em sua formação. "Ele chegou no Rio de Janeiro, do interior de Minas, em 1965. Eu tocava na boate de Cauby Peixoto e ele foi indicado para fazer a folga do pianista no domingo. Eu precisava de dinheiro e quem trabalhava nesse dia ganhava dobrado. Chegou o Wagner e ficamos amigos de cara. Ele sabia sobre a música mineira, sobre a música carioca, tentou entrar no movimento da Bossa Nova, ia muito ao Beco das Garrafas dar canja, falava de compasso composto, compasso de cinco, de sete, aí a gente ficava numa troca de informação, eu passava informação pra ele sobre ritmo carioca, e ele sobre música mineira. Foi através dele que fui conhecer o jazz de Miles Davis. Quando eu comecei a ouvir jazz, só valia quem tocava rápido, e Miles Davis chegou com uma proposta diferente, de tocar esticando a nota. O povo de Minas é muito harmônico, estava na praia do Miles Davis mil anos atrás."
 
Wagner Tiso foi quem aproximou Robertinho Silva e Milton Nascimento. "Foi ele quem nos apresentou num boteco de Copacabana. O Milton não era ninguém ali. Foi o Wagner quem deu o pontapé inicial, foi ele quem falou 'tem um garoto aí, o Robertinho, tem que chamá-lo pra gravar o disco'. É através da música do Milton, vamos dizer, da música mineira, que sou reconhecido no Brasil inteiro e em outros países do mundo."
 
Robertinho Silva conheceu o baixista Luiz Alves nessa mesma época, e desse encontro surgiu o grupo Som Imaginário. Reunido inicialmente para acompanhar Milton Nascimento, o grupo gravou diversos álbuns e, em sua formação inicial, além de Robertinho e Luiz Alves, contou com Wagner Tiso, o violonista Tavito, o guitarrista Frederyko, Zé Rodrix no órgão, percussão e flautas.
 
Outras referências musicais importantes para Robertinho Silva são os bateristas da Bossa Nova.  "Os três principais, Edison Machado, Milton Banana e Dom Um Romão. Os três como ídolos, mas Dom Um foi quem me pegou pela mão e me levou ao Beco das Garrafas. Eu tinha medo de ir lá. Rolava um preconceito. O cara universitário era o cara da Bossa Nova. O cara de área de baixa renda, vamos falar assim, o cara do subúrbio, que era músico de boate, tocava pra ganhar o pão nosso de cada dia. Eles chamavam de ‘a turma do azul-marinho’, aquele músico que tinha um armário na boate pra guardar o paletó azul-marinho e a gravata, porque haja lavanderia, haja grana pra lavanderia pro cara viajar com aquele terno todo dia, fora o calor. A gente tinha um pouco de vergonha de chegar no Beco das Garrafas, mas minha vontade era tão grande de ver os caras de perto, que eu de vez em quando saía, na minha meia hora de folga, e fugia pro Beco. Via os caras de perto, queria tocar daquele jeito, queria ficar livre de ser músico de boate, de tocar pra bêbado, porque ali os caras eram artistas."
 
E completa: "Já achava que era músico de palco, tanto que parei de tocar em cervejaria, tocar em boate. Falei 'quero ser músico de palco, solista'. É essa luta toda pra ser um baterista solista no Brasil, tem que ter muita força pra resistir. Resisto até hoje. Não me rendo."
 
Robertinho Silva conta como conheceu Dom Um Romão, e como foi levado por ele ao Beco das Garrafas para ouvir os músicos que tanto admirava: "Certa vez Cauby Peixoto foi contratado para um baile-show no Bangu Atlético Clube e, antes do show do Cauby, estava tocando a banda do Maestro Cipó, o Sete de Ouros. Quem tocava era o baterista Papão, Flora Purim era a crooner e Dom Um era seu namorado. Antes do show, soube que ele estava lá. Fiquei emocionado. Aproximei-me dele e falei: "Oi, prazer, eu toco bateria também, você é meu ídolo." Ele me perguntou onde eu tocava, eu disse que em Copacabana, com Moacyr Peixoto, irmão do Cauby, e ele respondeu: 'Ah, então você é fera! Por que você não vai lá no Beco?'. Disse que ficava constrangido, que não tinha grana pra pagar um lugar daqueles. Ele retrucou: 'Que grana que nada, você me vê lá no Beco e vem falar comigo'."
 
Como seu convidado, assistiu a Leny Andrade e Raul de Souza que, então, era chamado de Raulzinho do Trombone. "Eu quis sentar no chão porque estava lotado e Dom Um não deixou. Acabou tudo, agradeci e saí de lá correndo pra tocar na boate. Ele foi uma pessoa muito importante pra mim. Eu era inocente pra caramba, era puro talento mesmo, tinha até vergonha. O primeiro aplauso que ganhei, quando acabei de tocar e vi assim um cidadão batendo palmas, achei que ele estava me gozando."

Robertinho Silva tornou-se amigo de outra grande influência, Edison Machado. "Costumo dizer que ele é meu maior ídolo brasileiro como baterista. Era o que eu mais gostava em termos de dinâmica, atitude, tudo eu aprendi com ele."

 

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