Formação
Teco Cardoso já ouvia música mesmo antes de nascer.
"Sou filho de uma pianista erudita, de muito bom gosto, e desprovida de preconceitos. Em suas prateleiras conviviam, em perfeita harmonia, Brahms e Tom Jobim, Jessie Norman e Elis Regina, Horowitz e Errol Gardner, Rachmaninov, Villa-Lobos, Noel Rosa e Chico Buarque. Meu irmão mais velho, baterista e, posteriormente médico, acrescia a esta discoteca doses de Miles Davis, Duke Ellington, Zimbo Trio e Edison Machado. Tive o prazer de crescer numa casa com dois pianos, uma bateria, dois equipamentos de som e muitos discos. Eram raros os momentos em que não havia alguém tocando em minha casa, sempre freqüentada pela fina flor da música brasileira; pianistas como Jacques Klein e Arnaldo Cohen juntamente com maestros como Eleazar de Carvalho e Isaac Karabtchevsk, com direito a 'canjas' de nomes ilustres do cenário internacional, como o violinista Salvatore Acardo. Era no apartamento da Rua Senador Vergueiro 50, Flamengo, Rio de Janeiro, onde morei de 1967 a 1974, que se davam as reuniões após os concertos no Theatro Municipal, ou depois dos recitais na Sala Cecília Meireles."
Estas primeiras lembranças musicais foram marcadas, também, pela estranheza quando não havia música à sua volta...
"Me lembro de sentir um vazio incômodo na casa de meus primeiros amigos, onde ia brincar: o silêncio, a falta de alguma música sendo tocada e, principalmente, o fato de não ter aquele móvel tão presente na casa de todos os amigos dos meus pais e, sem dúvida, meu local predileto de brincar embaixo, o piano."
... e pela precoce observação do caminho a ser trilhado por quem queira se tornar músico.
"Muitos jovens pianistas se prepararam para concursos naqueles pianos de minha casa e ver aquele 'tacataca' lento e martelado, acompanhado de um metrônomo monótono e repetitivo, se transformar, após oito horas de metódico estudo, numa linda e vaporosa música foi, sem dúvida, uma de minhas primeiras e mais valorosas lições."
"De volta a São Paulo, em 1974, meu irmão foi o responsável por adicionar ao círculo de música erudita o de música popular que se formava ao redor de uma escola criada pelo Zimbo Trio, bem pertinho de minha casa, o CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical). O piano, agora, era dividido também por jovens talentos como Eliane Elias, Silvia Goes e Felix Wagner, e músicos como Arismar do Espírito Santo, Filó Machado e Nico Assumpção montavam seus instrumentos e amplificadores na sala, em 'jam sessions' pra lá de divertidas. Apenas assistir a essa festa como ouvinte não me contentava mais e havia chegado a hora de estudar música a sério; já havia estudado um pouco de piano no Rio de Janeiro com Luis Ascot e Sula Jafe, e tocava um pouco de flauta doce de ouvido."
Portanto, na hora de começar a estudar música a sério, Teco Cardoso, naturalmente, se encaminhou para a escola criada e dirigida por Amilton Godoy, Luiz Chaves e Rubinho Barsotti, os três componentes do Zimbo Trio. "No CLAM, em 1976, fiz parte de uma segunda geração de músicos que se formava, juntamente com Ulisses Rocha, Michel Freidenson e Sylvinho Mazzucca, entre outros tantos. Estudei inicialmente com Hector Costita e, depois, com Léa Freire, responsável por meu imediato começo de vida profissional, junto ao que havia de melhor, pois minha estréia nos palcos foi ao lado de Filó Machado, com uma banda que tinha Eliane Elias no piano, Nico Assumpção no baixo, Arismar do Espírito Santo na bateria, que foi seu primeiro instrumento, e Netão - José Neto, guitarrista e violonista agora radicado nos EUA. Do CLAM, em 1977, saíram minhas primeiras bandas com Michel Freidenson e, depois, um octeto, o grupo PéAntePé, que gravaria seu primeiro disco, em produção independente, em 1980." ("Pé Ante Pé", Editio Princeps, relançamento em CD, em 2007)
Tantos estudos e um já início de vida profissional não eram ainda suficientes para que Teco Cardoso, aos 18 anos de idade, optasse definitivamente pela música.
"Em 1978, prestei vestibular e fui estudar Medicina em Santos (SP), mantendo uma vida paralela como músico em São Paulo, participando do então 'Primeiro Movimento de Produção Independente de Música Instrumental' com grupos como PéAntePé, Acaru, Grupo Um e ZonAzul, entre outros, tendo o Teatro Lira Paulistana – um quase porão no bairro de Pinheiros - como uma espécie de sede do movimento. A música foi assumindo um papel maior e as minhas ambições médicas - inicialmente em psiquiatria, com a qual me decepcionei profundamente na época e substituí pela cirurgia plástica reparadora - foram diminuindo até que, no quinto ano da faculdade, ao fazer minha primeira turnê internacional como músico - com o Grupo Um pela Europa em 1982 - percebi que o plano havia mudado. O ideal agora seria ser músico por profissão e cirurgião por hobby. Mas como é fácil imaginar que medicina por hobby é praticamente impossível, era chegada a hora de uma decisão. Resolvi ir até o fim e fazer o internato - fase final e prática do curso de medicina, um rodízio por todas as especialidades que, no meu caso, foi feito metade em Santos e metade nos hospitais do INAMPS, em São Paulo -, me formar e, então, dedicar um ano à música em tempo integral para ver no que dava. A experiência prática adquirida no internato, na privilegiada posição de confidente e médico, foi fundamental na minha formação pessoal e musical, mas é claro que este ano de experimentação musical dura até hoje."
Em sua formação musical, mais do que com os métodos tradicionais para instrumentos e teoria musical, Teco Cardoso relata que aprendeu mesmo "ouvindo e tocando com os discos - o que faço até hoje - usando-os, ora como metrônomo, ora como base harmônica para percepção, afinação, improvisação, e como meio para estudar interpretação e, sobretudo, aprendi com os músicos, compositores, arranjadores e intérpretes fantásticos com os quais tive o prazer de dividir o palco. Como multi-instrumentista, aprendi a importância de achar uma sonoridade que seja minha, uma própria para cada instrumento que toco e, também, para cada situação; achar um 'som' que sirva a uma determinada situação, à composição, ao intérprete e que, mesmo assim, continue sendo pessoal."
Entre os músicos com quem conviveu e convive – e o que aprendeu com eles – Teco Cardoso enumera:
"Minha mãe, que me ensinou que interpretar é sobretudo dar um significado pessoal à música, que isto é fruto de muito trabalho e que, no fim das contas, música só há duas, a bem tocada e a mal tocada;
Léa Freire, que desmistificou todos os medos e me ensinou que o negócio é dar a cara pra bater e que tocando é que se aprende; Guilherme Vergueiro, que me apresentou uma maneira moderna e própria de ver o samba e a música brasileira; Moacir Santos, que me ensinou a beleza do simples e que a música transcende os meios físicos de percepção, com funções que vão muito além do mero entretenimento."
E de todo este aprendizado, o que ficou de mais agradável e mais útil?
"O agradável é, sem dúvida, sentir o poder de transformar um ambiente e as pessoas que estão nele com sua música. O mais útil na carreira de um músico é ele ter a consciência de que está a serviço da música e não o contrário, e permanecer honesto aos seus princípios éticos e estéticos."
Mesmo com toda essa formação, o auto-didatismo também teve espaço no aprendizado de Teco Cardoso.
"Eu tive uma boa base e, depois, fui um autodidata clássico, aprendendo quase tudo sozinho; a improvisar, interpretar e a resolver passagens tecnicamente difíceis. Mais tarde, fui estudar de novo harmonia, arranjo, e contraponto. O processo é muito interessante pois parte, numa primeira instância, da observação e, em seguida, de uma apropriação em que se personaliza a informação."