Toninho Horta nasceu em uma casa onde todos cantavam ou tocavam algum instrumento.
“Lembro de minha mãe tocando bandolim, com meu pai ao violão tocando valsas e modinhas de meu avô João Horta, que também compunha músicas sacras, como missas de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Suas partituras estão espalhadas pela família e em acervos de Mariana (MG), onde morou. Tocava vários instrumentos, e minhas tias que moravam com minha mãe também. Cantavam suas canções e lembravam de suas passagens na música pelas cidades do interior de Minas. Avô João montava sempre uma banda de música nas cidades onde ia supervisionar a abertura de nova linha de trem da Central: Diamantina, Ressaquinha, Mariana, Catas Altas, etc.
Minha mãe, por sua vez, comigo na barriga, dedilhava no piano e eu já vinha escutando música antes de nascer.
De tanto tocar na vitrola o ‘Nonaná’, rumba cubana, quase furei o 78 rotações... Aos três anos, chorei ouvindo ‘Clair de Lune’, de Debussy, e minha mãe realmente achou que eu tinha uma ligação muito grande com a música.”
Além dessas primeiras lembranças musicais, muitas outras habitaram a infância de Toninho Horta.
“Aos oito, nove anos de idade eu ouvia clássicos que minha mãe punha na vitrola, o jazz que meu irmão e guru Paulinho, já falecido há seis anos, nos mostrava e que era ‘música de verdade’; a improvisação e a versatilidade dos músicos norte-americanos de jazz. De cantores, bandas e musicais ouvíamos de tudo: Frank Sinatra, Les Girls, Roy Hamilton (este eu dublava), Ella Fitzgerald, Stan Kenton, Oklahoma, tudo era muito intenso... Minhas irmãs mais velhas, Letícia e Gilda, dançavam o fox trot em horas dançantes em casa e, nos fins de semana, cantavam em operetas com a Sinfônica de Minas Gerais. Gilda, depois, virou minha primeira produtora e me tirou da ‘casca do ovo’. Berenice, que vem logo depois, tocou violão comigo na TV Itacolomi, em Belo Horizonte, nos anos 1960, e sempre demonstrou grande talento pra música, embora tenha se formado em História e Sociologia; hoje é meu braço direito na empresa Terra dos Pássaros, de produção cultural. Berenice teve a iniciativa de criar a Orquestra de Violões do Colégio Estadual Central de Belo Horizonte, da qual sou padrinho, com mais de 30 jovens participando e outros tanto aprendendo para pegar, no futuro, um lugar na orquestra. A caçula, Lena Horta, é professora do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, foi também da Universidade Estácio de Sá, esteve na Orquestra Sinfônica de Campinas (SP), é formada em flauta pela Universidade Federal de Minas Gerais e fez parte do meu grupo original, Orquestra Fantasma.
Aos 10 anos, comecei a aprender os primeiros acordes de violão com minha mãe e o mano Paulo, e logo passei minhas irmãs, pela vontade que tinha de dominar o instrumento.
Ouvindo sambas-canções e o início da bossa nova, aos 13 anos fiz minha primeira música, ‘Barquinho, vem’, e aos 14, ‘Flor que cheira a saudade’, gravada pelo Conjunto de Aécio Flávio, do qual meu irmão era contrabaixista, cantada por Márcio José, o mesmo que, em 1967, interpretou no Maracanãzinho (II Festival Internacional da Canção Popular) minha música em parceria com Márcio Borges, “Nem é carnaval". A outra canção foi "Maria Madrugada", com letra de minha prima Junia Horta, cantada no Festival pelo conjunto vocal O Quarteto, de São Paulo, grupo super moderno pra época.
Na adolescência, fazia música com amigos nas padarias e bares do bairro Floresta, em Belo Horizonte, e ouvia de tudo da bossa nova no rádio e no shopping Pepsi de BH, o primeiro de tantos, hoje extinto... Mas aprendi demais ouvindo, vendo na TV o Baden Powell e amigos da cidade tocando: Luizinho, Hugo Luiz, Karim, exímios guitarristas e violonistas que me influenciaram muito.”
Vivendo música desde a mais tenra infância, Toninho Horta foi, então, estudar em uma faculdade de música.
“Aos 17 anos, entrei para a Universidade Mineira de Arte e estudei teoria e solfejo. Fiz aulas de piano com meu primo mais velho, Halley Flamarion, virtuose de piano (num concurso em Belo Horizonte, tirou o segundo lugar, enquanto Nelson Freire tirava o primeiro, anos atrás...). Tive dois meses de aulas, depois mais dois ou três meses, e depois mais um pouco, e ainda peguei aulas com o professor Evandro Passos, do Rio de Janeiro, quando comprei meu primeiro piano, aos 27 anos, já na época final do Clube da Esquina.
Mas, jamais gostei muito da parte teórica, gostava mais de tocar e criar. Era desligado na escola, mas ligado na música, nas letras...”
Portanto, não é de se estranhar que Toninho quisesse distância dos métodos de música.
“Fui avesso aos livros, mas já estudei o Bona (“Método Completo Para Divisão Musical”, de Pascoal Bona, Editora Vitale), mas era meio preguiçoso. Queria descobrir as coisas por mim mesmo. Mas ouvia música direto, adorava orquestras, jazz, congado, música nordestina tocada nas barraquinhas de São Pedro e São João em junho, julho, tudo isso fazia a minha cabeça. Com o violão, gostava de subir um dedo pra lá, outro pra cá, descobrindo novos acordes, novos caminhos, cores, timbres...
Cresci musicalmente trabalhando em acordes e harmonia, só fui ter interesse pelas escalas muitos anos depois. Até hoje não tenho interesse total, pois me divido como compositor, cantor, guitarrista, violonista, arranjador. Nunca tive intenção de ser virtuose do instrumento. Prefiro a concepção a qualquer outra coisa. Por isso, meu som é conhecido; pela identidade, particularidade no toque do instrumento, e linhas de melodias e harmonias nas composições.”
No entanto, nada disso significa que Toninho Horta achasse, ou ache, que saiba tudo.
“Até hoje continuo aprendendo. Isto é real e é eterno, enquanto a gente vive está descobrindo algo novo. Na Julliard School, em Nova York, nos anos 1982-83, participei do Curso de Extensão e, depois de fazer a prova e dizer que queria estudar contraponto, arranjos e orquestração, o resultado que alcancei só me permitiu fazer o ‘Rudments of Music’, ou seja, ‘Teoria Musical’. Foi legal porque aprendi inglês: ‘This is claf, this is note...’. Mas de música mesmo não aprendi nada. Meu professor era meu fã e não entendia porque eu estava na famosa escola, já que eu tinha gravado os LPs ‘Toninho Horta e Orquestra Fantasma’, de 1979, e ‘Toninho Horta’, de 1980, com orquestrações e músicas próprias, com estilo e desenvoltura nas guitarras e na voz. Ninguém entendia nada...”
Houve muita gente decisiva na formação musical de Toninho.
“Paulinho, meu irmão, pelo bom gosto musical - nos anos 1950, ele formou o Jazz Fã Clube com fanáticos audiófilos do jazz. Ele e seus amigos Chiquito Braga (meu maior ídolo da guitarra em Minas), e Valtinho baterista, mostraram pra toda uma nova geração que estava nascendo em Belo Horizonte o que era música boa de se ouvir e de engrandecer a cultura musical. Eles foram ganhadores dos festivais de jazz e bossa nova que aconteciam nos anos 1960 em Belo Horizonte e influenciaram músicos pré Clube da Esquina como Paulinho Braga, Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso e tantos outros. Mas quando comecei a ouvir a bossa nova aos 13, 14 anos, meus ídolos se tornaram Tom Jobim, no Brasil, e Henry Mancini, nos States, este último pelas trilhas maravilhosas de cinema. Mas desde os 10 anos de idade já ouvia Wes Montgomery, Tal Farlow, e aos 13, 15, me deliciava com Barney Kessel, Elek Basic e tantos outros. Sempre adorei a guitarra, o violão, mas as orquestrações eram o máximo, com sonoridades e passagens incríveis... Até debaixo da cama ia chorar com Tchaikovsky, Mozart, Strauss, etc.”
Para Toninho Horta, o autodidatismo significa filtrar, de cada experiência musical, o que lhe é importante, independentemente do pré estabelecido por quem quer que seja.
“Desde o início, tive curiosidade de ver e ouvir as outras pessoas tocando e eu escolhia o que queria aprender. Desenvolvi a prática de achar novas harmonias, inversões no violão, em muitas horas e horas que ficava sozinho em casa me dedicando ao instrumento. A guitarra eu só toquei pela primeira vez aos 19 anos, quando ingressei na Banda Bacana, de Aécio Flavio, a mesma em que meu irmão tocava: os tempos eram outros, eu já tinha mais idade, mas sempre reconheci o carinho e as aulas de Aécio Flávio quando ele me mostrava o caminho das pedras, me ensinando coisas e, desde cedo, valorizando meu trabalho de compositor, escrevendo as partituras de minhas primeiras músicas. O fato de ter tocado com músicos de qualidade, que tocavam em bailes pra sobreviver, mas eram jazzistas de primeira nos festivais que aconteciam em Minas, foi genial; eles reconheciam meu talento e me davam grande incentivo.
Toquei no início da Rádio Inconfidência, conheci lá o cego Pedro Matheus, exímio violonista, acompanhei cantoras na TV, em festivais de colégio... Tudo isto era forma de crescimento musical, que valorizo muito!”
Toninho valoriza, também, o encontro e a convivência com diversos músicos em sua caminhada.
“A gente está sempre aprendendo. Nos tempos do Rio de Janeiro, a convivência com o Bituca, Milton Nascimento, foi genial; pra mim, ele é o maior músico do planeta. Mas Hermeto Pascoal, Dominguinhos, Dori Caymmi, Edu Lobo - este então! -, todos estes e outros tantos nos ensinam a cada música, porque cada canção é uma história diferente, como se fosse uma viagem, e eu adoro viajar no som, isto me faz ser feliz e conhecer coisas novas pra passar para os ouvintes e músicos da nova geração.”